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terça-feira, 20 de outubro de 2015






Livro : Abc da Literatura

Autor : Ezra Pound

Tradução : Augusto de Campos e José Paulo Paes

Editora : Cultrix

Paginas 182 a 185.


ARNAUT DANIEL ( 1180 - 1210 )

Aura Amara


Aura amara
branqueia os bosques, carcome a côr
da espêssa folhagem.
Os
bicos
dos passarinhos
ficam mudos,
pares
e impares.
E eu sofro a sorte :
dizer louvor
em verso
só por aquela
que me lançou do alto
abaixo, em dor
- má dama que doma.

Foi tão clara
a luz do seu olhar,
que no meu coração
gravou a imagem.
Dos
ricos
rio, seus vinhos,
damas e ludos
parecem-me vulgares.
Só tenho um norte:
morrer de amor
imerso
no olhar da bela
que me tomou de assalto,
seu servidor
ser, dos pés à coma.
Amor, pára !
Que queres mais provar ?
È inútil torturares o teu pagem,
só os
picos
dos teus espinhos
ponteagudos
dares,
flor negares.
A alma é forte,
mas o corpo inverso
já se rebela
e quer de um salto
colhêr a flor
de bôca, beijo e aroma.

Se me ampara,
essa a quem vivo a orar
no calor
da sua hospedagem,
justifica os meus descaminhos,
muda os pesares
dos meus pensares.
Mas antes morte
me propor
adverso
do que perdê-la,
meu sobressalto.
Que o seu valor
é mais que qualquer soma.
Face cara
que me faz pervagar
sem temor,
atrás de uma miragem,
nos becos,
pelos caminhos
mais desnudos,
por ares
e por mares,
em louco esporte.
Desprezo o humor
perverso
e,surdo, a ela
sobreamo, falto
de senso, amor
maior que a Deus tem Doma.

Vai, prepara
canções para doar,
trovador,
ao rei em homenagem.
Rústicos pães, duros linhos
serão veludos,
raríssimos manjares.
Parte com porte .
Embora em dor
subverso,
venera o anel. A Aragon, baldo,
vai teu ardor,
pois quem comanda é Roma.
Ei-la em seu forte.
Combatedor
converso,
em sua cela
sou prisioneiro, Arnaldo.
Esse sabor
de amar ninguém me toma.

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