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segunda-feira, 15 de junho de 2009

Joca, eu lhe disse que já havia lido o seu livro, no entanto, agora, estou estudando melhor o seu livro, faço estas primeiras observações e gostaria que você lesse e me retornasse. Ainda não sei se o compreendi totalmente e este é meu maior interesse. Fiz este comentário, por enquanto:
"Joca Faria é um poeta à parte. Seus estudos de filosofia o levam a construir um mundo próprio, preocupado com as atitudes auto-destrutivas dele mesmo e da sociedade humana como um todo, chega a ter, em muitos aspectos, uma característica de messianismo, no entanto, muitas vezes, as palavras funcionam bem nos poemas e a sua forma de protesto realmente põe o leitor a pensar. Sua preocupação excessiva com a morte remete, pelo tema, aos poetas românticos que a buscavam excessivamente. Sua preocupação excessiva com o aspecto negativo da sociedade atual que leva o mundo a auto-destruição, apesar de atual, tem como substrato, deuses gregos e indianos, caminhando até para um certo esoterismo, e para referências incomuns ao brasileiro médio. A forte presença de referência ao sexo também revela um poeta que enxerga mais o sexo do que o amor como forma de redenção humana. Podemos perceber um poeta que conhece bem os textos de várias religiões e que acaba por fazer, muitas vezes, uma fusão de várias delas, conectando-as e interrelacionando-as.
A dificuldade maior do livro de Joca Faria é o por onde iniciar a sua leitura, já que não há uma sequência de temas a uniformizá-lo. Cada poema vai tratando de um assunto, ora a preocupação com a situação da sociedade, ora o desejo sexual, ora a morte, ora uma profecia, ora a dicotomia entre o sagrado e o profano. Concluo que não há forma de iniciar o livro porque não há forma de se colocar ordem no caos. A proposta do livro parece ser o próprio caos, a confusão do homem moderno, bombardeado por milhares de informações e sendo solicitado a todo instante a dar uma razão para a sua existência. Para Joca Faria não há razão para a vida humana, havendo milhões de razões para a exterminação da vida humana da face da terra, restando entregar o mundo às baratas.
Deste ponto, talvez falte-lhe avançar na filosofia e trazê-la mais próxima dos tempos atuais, chegando até Dag Tessore e Giles Lipovetzki, filósofos atuais que discutem muito a atual sociedade de consumo que está levando o mundo à destruição.
Percebe-se a aura de um poeta atormentado por questões muito maiores do que ele, questões já citadas (profano-sagrado, desejo, morte, sexo, destruição). Joca Faria não traz a poesia para o dia-a-dia dos mortais normais, coloca-a em outra esfera, diferente da que estamos acostumados, como se fossem códigos ainda por decifrar, símbolos que falariam mais alto do que a vida humana.
Este universo tão particular que ele enxerga através das suas “Retinas” é o que distingue dos demais, mas até mesmo esta discussão que ele propõe, de certa forma, deve ser inserida no debate da cidade como um todo, afinal, é a partir da cidade, das observações das relações humanas que ele elabora sua teoria do caos e da destruição.
Aos poucos, Joca Faria vai-se infiltrando e assumindo a cidade, principalmente ao enxergar uma personagem constante em sua poesia, a mulher, vista algumas vezes como a prostituta que corre o risco na rua em “A Dama”:
“Na dura esquina da noite/ Ela busca seus sonhos/ Linda mulher, desejada/ Corre risco/ Em busca da liberdade...”,
Mas, em geral, a mulher é o mistério que ele tenta decifrar, ao mesmo tempo sagrada e profana, a mulher pela qual ele sofre, que é anjo, a qual ele deseja e que, por isso mesmo, leva-o à morte e à própria destruição.
Além de se inserir na cidade através da mulher, Joca Faria se insere, também, ao reverenciar o Vale do Paraíba, ao protestar contra a destruição da natureza, ao desejar ser o dono do próprio chão. Os melhores poemas de Joca Faria são os que ele abandona a explicação da filosofia e parte para a simplicidade, claro, percebemos que a filosofia está presente nos poemas em que ele busca mais a síntese do que a explicação como em “Faces”:
“Acaso a sussurrar/ em meus sentidos,/ No labirinto te encontro/ Ausência presente/ mistério de sete faces”
Neste poema, Joca sintetiza todo o mundo que ele exaustivamente se explica ao longo do livro, há alguém (provavelmente a mulher desejada) a sussurrar nos sentidos, ou seja, não apenas no ouvido, mas em todos os sentidos esta mulher sussurra. Ele a encontra no labirinto, que pode ser entendido como o emaranhado de ações cotidianas, as contradições e dificuldades, onde ela está ausente (pois o poeta a busca) mas presente (porque impregnada em seus sentidos) sendo um mistério para ele em como ela consegue isso, como ela é multifacetada (sete faces), de cada forma que a mulher desejada se apresenta. Por enquanto é isso, ainda estou estudando e compreendendo, se é que um poeta pode ser compreendido.Fernando Scarpel

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