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segunda-feira, 17 de abril de 2006

Cassiano Ricardo


O poeta Cassiano Ricardo em
foto oficial da Academia Brasileira
de Letras









Cassiano Ricardo (1895 - 1974)
Café-Expresso
1Café-expresso — está escrito na porta.Entro com muita pressa. Meio tonto,por haver acordado tão cedo...E pronto! parece um brinquedo...cai o café na xícara pra gentemaquinalmente.E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulonesta pequena noite líquida e cheirosaque é a minha xícara de café.A minha xícara de caféé o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vêm à memória[apagada...Na minha memória anda um carro de bois a bater as porteiras da[estrada...Na minha memória pousou um pinhé a gritar: crapinhé!E passam uns homensque levam às costasjacás multicorescom grãos de café.E piscam lá dentro, no fundo do meu coração,uns olhos negros de cabocla a olhar pra mimcom seu vestido de alecrim e pés no chão.E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa...Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na catléia cor de[sol que floriu no portão...E o fazendeiro, calculando a safra do espigão...Mas acima de tudoaqueles olhos de veludo da cabocla maliciosa a olhar pra mimcomo dois grandes pingos de caféque me caíram dentro da almae me deixaram pensativo assim...2Mas eu não tenho tempo pra pensar nessas coisas!Estou com pressa. Muita pressa.A manhã já desceu do trigésimo andardaquele arranha-céu colorido onde mora.Ouço a vida gritando lá fora!Duzentos réis, e saio. A rua é um vozerio.Sobe-e-desce de gente que vai pras fábricas.Pralapracá de automóveis. Buzinas. Letreiros.Compro um jornal. O Estado! O Diário Nacional!Levanto a gola do sobretudo, por causa do frio.E lá me vou pro trabalho, pensando...Ó meu São Paulo!Ó minha uiara de cabelo vermelho!Ó cidade dos homens que acordam mais cedo no mundo!

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